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Mitos e Verdades sobre a medicação psiquiátrica

Quando um paciente recebe o diagnóstico de hipertensão ou diabetes, a indicação de um remédio costuma ser aceita com naturalidade. No entanto, quando o diagnóstico é de depressão, ansiedade ou outro transtorno mental, a simples ideia de tomar uma medicação psiquiátrica gera pânico, recusa e muita desconfiança.

Esse medo é alimentado por décadas de estigmas, desinformação e imagens distorcidas retratadas em filmes. Como resultado, muitas pessoas suportam um sofrimento emocional paralisante por puro medo do tratamento.

Para que você possa tomar decisões seguras sobre a sua saúde, precisamos separar o que é ciência do que é mito popular.

Mito 1: “Vou ficar dependente (viciado) no remédio para o resto da vida”

Este é, sem dúvida, o medo número um nos consultórios. Para desmistificá-lo, precisamos entender que existem diferentes classes de medicações.

Os medicamentos que possuem potencial de causar dependência química (se usados de forma incorreta ou prolongada sem supervisão) são, em sua maioria, os calmantes e indutores de sono da classe dos benzodiazepínicos — os famosos remédios de “tarja preta” (como clonazepam e diazepam). Eles são úteis para alívio agudo, mas não tratam a raiz do problema.

Por outro lado, a base do tratamento psiquiátrico de longo prazo é feita com antidepressivos e estabilizadores de humor. Essas medicações não causam dependência química. Elas não geram “vício” ou tolerância (a necessidade de aumentar a dose para ter o mesmo efeito). O que ocorre ao final do tratamento é um processo de retirada gradual (desmame) para que o cérebro se readapte, e não uma crise de abstinência de um vício.

Mito 2: “O remédio vai mudar a minha personalidade e me deixar dopado”

Muitos pacientes chegam ao consultório dizendo: “Doutora, eu não quero perder a minha essência, não quero virar um zumbi.”

A verdade é exatamente o oposto: o que rouba a sua personalidade é a doença, não o remédio. É a depressão que tira o seu brilho, o seu senso de humor e a sua vontade de interagir. É a ansiedade que o torna irritadiço e isolado.

A medicação correta atua regulando substâncias químicas no cérebro (como serotonina e noradrenalina) para retirar o peso da doença, permitindo que a sua verdadeira essência volte a aparecer. Se você está tomando um remédio psiquiátrico e se sente “dopado”, apático ou letárgico, isso não é o esperado. Significa apenas que a dosagem ou a molécula escolhida não estão adequadas para o seu organismo e precisam ser ajustadas pelo seu médico.

Mito 3: “Todo antidepressivo engorda”

O ganho de peso é uma preocupação muito válida, mas afirmar que todos os remédios psiquiátricos engordam é um mito absoluto.

A psiquiatria moderna avançou muito. Embora algumas medicações mais antigas realmente tenham como efeito colateral o aumento do apetite ou a lentificação do metabolismo, hoje temos um arsenal terapêutico vasto. Existem moléculas modernas que são completamente neutras em relação ao peso e outras que podem até auxiliar na perda de peso ou no controle da compulsão alimentar.

A escolha do remédio é feita “sob medida” para você, levando em consideração o seu histórico metabólico, suas queixas físicas e as suas preocupações.

A importância de um acompanhamento médico de perto

O maior erro no tratamento psiquiátrico é a automedicação ou o abandono do remédio por conta própria quando os sintomas melhoram. Parar a medicação de forma abrupta sem orientação médica é a principal causa de recaídas severas.

Por isso, o tratamento eficaz exige parceria. Na minha prática clínica, que une a Psiquiatria e a Psicologia, a prescrição é feita com extrema cautela e transparência. A medicação servirá para estabilizar a sua química cerebral, enquanto, na psicoterapia, trabalharemos suas ferramentas emocionais. O objetivo não é que você dependa de um remédio para sempre, mas sim que tenha o suporte necessário para reconstruir a sua qualidade de vida.